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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Lembranças

             
Hoje me veio a lembrança de você chacoalhando o molho de chaves no ar, então o muro que impedia as lembranças de nós dois desmoronou, e o tilintar das chaves ecoou no meu ouvido. Bastou uma lembrança para que todas invadissem minha mente. Olha só, agora estou aqui me afligindo com memórias que já deviam ter sido apagadas. Nenhum borracha é capaz de apagar lembranças.

 Quando você colocou uma mecha do meu cabelo solta atrás da minha orelha e me fitou nos olhos, naquele momento percebi que te amava.  O amor vai se desenvolvendo, mas sempre terá um dia, um lugar, um momento, que você terá certeza que é amor. E eu tive certeza naquele dia. Lembro-me de quando disse que te amava pela primeira vez e sua expressão ficou vazia como um papel em branco sem vestígio de palavra, apenas me olhou e naquele momento tive medo. Medo de não ser correspondida. Mas então você se aproximou e sussurrou bem baixinho as mesmas palavras.

  Tenho lembranças nítidas de você, como se fossem fotografias impressas na minha mente. Quando estava com o braço cruzado sobre o tórax, olhando para mim com o maxilar rígido esperando uma resposta. Ah! Como eu gostaria de voltar no tempo e te responder com todas as palavras, as mais belas que existem, o quanto eu adorava ver você assim.

   10 de março. O céu azul límpido com a luminosidade do entardecer e sua obliquidade senciente, com certeza foi o dia mais bonito. Você me esperando perto daquela loja de móveis lotada de gente, mesmo me perdendo em meio ao borbotão de pessoas, fitava você com os olhos porque sabia que aqueles olhos iam me guiar para sempre. Quem diria que esses mesmos olhos iam se perder no horizonte , me deixando tão perdida em meio à perguntas incessantes. Quem diria que você ia se misturar com aquele aglomerado de pessoas confusas e partiria ao ponto de não conseguir nem distinguir sua camisa.

   E começamos de novo. Começaria de novo milhares de vezes só para ter o gosto de conseguir o que tanto queria. Tem certas pessoas que são como catracas de ônibus estragadas; passam no momento que quiserem, sem se preocupar com o valor que irá deixar. Lembro das vezes que me olhava no espelho naquele tempo e meus olhos chamuscam felicidade. Era tão obvio, o motivo de tanta felicidade era sempre você. Vice-versa. A vitalidade transbordava de você, e só você, tinha aquele sorriso inebriando que se curvava no rosto à cada palavra que fugia da minha boca.

Tento esquecer, mas sou uma lembrança assídua do que aconteceu. E procuro em outro alguém, o alguém que você era.

Um comentário:

Paulo André disse...

Já passei por isso, um fato isolado desperta uma enxurrada de lembranças, e sofremos tudo de novo.....